Carta Aberta à Dilma

Cara Dilma,

Enquanto escrevemos ativistas políticos estão sendo procurados pela polícia, muitos já estão presos. Nos últimos meses, os protestos têm sido duramente reprimidos e as ações de alguns manifestantes viraram pretexto para impedir, com violência, toda e qualquer manifestação. Essa realidade nos inquieta, motivo pelo qual nos dirigimos a você que, além de atual presidente da república, é uma personagem simbólica de nossa história recente de luta contra a ditadura.

Sabemos que o fim da ditadura e o estabelecimento de um regime democrático no Brasil é um processo ainda em curso, para o qual contribuem muitas das ações realizadas nos doze anos de governo do seu partido: os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família; as cotas para negros, índios e pobres nas universidades públicas, sua ampliação, bem como o investimento em escolas técnicas; a Comissão da Verdade; o Marco Civil da Internet; a proposta do Plano Nacional de Participação Social, que prevê o incremento dos dispositivos de participação; os programas de habitação popular, só para citar alguns exemplos.

A partir dessas políticas, além de outras tantas, brasileiras e brasileiros de muitas cidades tiveram a experiência existencial de desnaturalização da pobreza, experimentaram um lugar social distinto do que estavam habituados a ocupar. A mobilidade social liberou um desejo de tornar-se outro, surgiram novas subjetividades, nem sempre adequados aos moldes tradicionais da esquerda. Junho, de certa forma, é um dos desdobramentos de todo esse processo.

Aconteceu exatamente o que muitos de nós esperávamos: a vida democrática levou a uma maior politização da sociedade, especialmente da juventude. Por isso mesmo, esperamos de você um diálogo com as manifestações de rua que se iniciaram no ano passado. A democracia não se resume apenas à participação na consulta eleitoral.

Os atores desses novos movimentos são múltiplos e envolvem diferentes orientações políticas. Desprezá-los, criminalizando-os ou os classificando de “coxinhas” é uma desqualificação da própria potência das políticas dos últimos doze anos. Temos que estar atentos para que o pacto de governabilidade formulado no primeiro governo Lula, importante em um primeiro momento, não acabe por se tornar uma armadilha para o governo e, sobretudo, para o PT.

A criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, por meio de ações do judiciário, do ministério público e da polícia, constituem aspectos da realidade brasileira cujo enfrentamento nos parece incontornável para que as políticas públicas mencionadas alcancem seu real objetivo: a instituição da igualdade em companhia da liberdade de participar e de decidir os rumos da sociedade brasileira.

Acreditamos que a radicalização dos discursos se deve também ao silêncio de seu governo com relação aos novos movimentos e atores sociais que surgiram no cenário político desde junho do ano passado. Sabendo que nos dirigimos a quem já sofreu na pele a criminalização da luta política, escrevemos esta carta no intuito de pedir que seja reconhecida a importância desses movimentos para a prática da democracia.

A vida democrática supõe a liberdade de organização, de expressão e de manifestação. É a ela que nos reportamos por compreendermos que é a resistência, e não apenas a obediência, o que constitui a cidadania.
Com respeito por sua história de luta, contamos com seu apoio a este novo horizonte de ação política pela democracia.

Para assinar:
http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR73347

Assinam:
Adriana Facina – Museu Nacional/UFRJ
Alberto Pucheu – Professor da UFRJ
Alexandre Ferreira de Mendonça – Professor da UFRJ
Ana Kiffer – Professora PUC-RJ
Bárbara Santos – Centro de Teatro do Oprimido
Bernardo Oliveira – Professor da UFRJ
Cecilia Cotrim – Historiadora
Cláudio Oliveira – Professora da UFF
Consuelo Lins – Professora da UFRJ
Dra. Elizabeth Silaid Muxfeldt – Medicina, UFRJ
Eduardo Valente – Cineasta, Ancine
Fábio François Fonseca – Oficial de Justiça, Justiça Federal Do Rio De Janeiro
Fernanda Bruno – Professora da UFRJ
Francisco de Guimaraens – Professor da PUC-Rio
Gisele Cittadino – Professora da PUC-Rio
Giuseppe Cocco – Professor da UFRJ
Helena Martins – Professora da PUC-Rio
Luiz Carlos Pereira – Professor da PUC-Rio
Jean Tible – Professor da Fundação Santo André
João Camillo Penna – Professor da UFRJ
Luisa Godoy Pitanga – Mestranda PPGSA-IFCS
Luiz Roberto Lima – United Rede Internacional de Direitos Humanos
Márcio Guimarães Pessoa – Advogado
Marcio Tenenbaum – Advogado
Marco Nascimento – Servidor Público Federal, Ministério da Saúde
Mariana Mansur – Designer e produtora
Mariana Patrício Mariana Patrício Fernandes – Professora
Mauricio Rocha – Professor da PUC-Rio
Mauro Sá Rego Costa – Professor da UERJ
Miguel Jost – Professor e pesquisador da PUC-Rio
Polianne Delmondez – Psicóloga e Doutoranda em Psicologia Universidade de Brasília.
Rodrigo Bodão – Poeta, psicólogo e pesquisador do Observatório de Favelas
Rodrigo Guéron – Professor da UERJ.
Ronald Duarte – Artista de ação urbana
Rudá Ricci – Sociólogo e cientista político, Diretor Geral do Instituto Cultiva e membro do Observatório Internacional da Democracia Participativa
Samuel Braun – Cientista Social

Sebastian Archer – Administrador e candidato à deputado estadual pelo PT 13056
Simplício Neto – Cineasta
Tatiana Roque- Professora da UFRJ
Thamyra Thâmara – Ocupa Alemão/Mestranda na UFF
Vinícius Reis – Cineasta
Viviane Magno – Advogada e membro do Ministério Público Federal

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s