Sede do Tortura Nunca Mais de São Paulo é demolida sem aval do grupo

 

18/09/2013

Escrito por: Brasil de Fato

Instrumento de luta de familiares de mortos e desaparecidos políticos da ditadura militar, o grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo trava uma disputa para continuar suas atividades no sobrado cedido pessoalmente por Dom Paulo Evaristo Arns, em 1987. Utilizada como espaço cultural e social, a propriedade, localizada em um espaço estratégico da cidade, na Rua Frei Caneca, corre o risco de dar lugar a um estacionamento.

As negociações sobre a reutilização do espaço pelo grupo estavam em andamento com a Igreja Católica quando, na semana passada, e sem aviso prévio, o pároco da Paróquia do Divino Espírito Santo, Lucas Pontel – responsável pela casa – ordenou a sua demolição. “O padre passou por cima de todo diálogo que estava acontecendo. A posição do Tortura Nunca Mais foi de construir um diálogo com a Cúria no sentido de não só permanecer no espaço como ampliar este espaço para as entidades de direitos humanos”, explica Marcelo Zelic, vice-presidente do grupo e responsável pelas negociações com a cúpula da Igreja.

Em rápida negociação, no final de semana, o grupo conseguiu a ordem para que o processo de demolição fosse paralisado. Em três dias, somente os anexos do fundo foram demolidos. No entanto, muita coisa foi destruída. “Desapareceu a placa da entrada do Tortura Nunca Mais dada por Dom Paulo em um ato 26 anos atrás, por exemplo. Mas, nós colocamos um logo e pintamos o portão”, conta Marcelo.

Os escombros que ficaram pelo espaço interferem diretamente na dinâmica da casa, que abriga reuniões de pelo menos uma dezena de grupos autônomos da cidade, entre eles o Movimento Passe Livre (MPL). “O escombro está todo lá. Nós achamos até uma escultura de Jesus Cristo, várias coisas religiosas no meio de tudo”, observa Rose Nogueira, presidente do grupo. Segundo ela, a ação do padre foi absurda e não há conhecimento de que ele tenha recebido aval da Prefeitura para fazer a demolição.

Segundo os dirigentes do grupo, a disputa pelo espaço é antiga. Há um ano, o padre chegou a fixar uma placa na frente do imóvel solicitando que toda correspondência do grupo fosse entregue na Paróquia. “Eu considero isso gravíssimo. O padre colocou na porta um aviso para o Correio entregar a nossa correspondência para ele. Ele esta recebendo a nossa correspondência por quê?”, questiona Rose ressaltando que até mesmo a luz nas áreas do prédio onde eram feitas exibições de filmes já chegou a ser cortada.

A casa abriga hoje um importante acervo sobre os mortos, torturados e desaparecidos políticos durante a ditadura, além da própria história documentada do Grupo Tortura Nunca Mais – SP. A luta agora, segundo Rose, é pelo tombamento do espaço para que possa sediar reuniões de entidades que combatem a violência contra a mulher, a criança e o genocídio da juventude. “Eu quero falar com a prefeitura e o governo para fazer um tombamento daquele espaço porque ele é histórico. Ali houve toda uma resistência à ditadura. Eu gostaria de transformar o casarão do grupo em um espaço Memorial de Direitos Humanos de São Paulo, para que todas as pessoas e entidades que trabalham com direitos humanos pudessem ter um lugar”, afirma.

A reportagem não conseguiu contato com a Paróquia do Divino Espírito Santo.

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