Os sócios da Selic e os quindins de ouro – por Saul Leblon

02/04/2013 – do site Carta Maior

São graúdos, e contabilizáveis, os interesses que arrendam espaços e gargantas para vocalizar a luta diuturna pela alta dos juros no país.

O pleito está marmorizado em cada centímetro da menos imparcial de todas as seções do jornalismo: o noticiário de economia. Daí se irradia para afinar o jogral de vulgarizadores e agregados de orelhada e holerite.

A centralidade que une as tropas é compreensível. Trata-se de uma queda de braço decisiva.

Os sabichões que advogam a panaceia do ‘novo ciclo de alta’ da Selic sabem do que estão falando. E não estão falando apenas em adicionar mais 0,25% às taxas atuais, na reunião do Copom, do próximo dia 17.

Isso até pode acontecer. Mas não é esse o alvo, nem a dose cogitada.

O braço de ferro é para reverter um reordenamento estratégico.

É a história do país, estúpido!

É disso que se trata, embora eles dissimulem o seu lado na encruzilhada brasileira em versões amigáveis ao interesse da sociedade.

De ‘toda’ a sociedade.

Ou não seria o choque de juros o melhor protetor para os males da Nação, um Biotônico Fontoura que combate preços, maleita e bicho de pé?

Fatos.

A pátria rentista não admite que a prioridade do sistema econômico deixe de ser a que sempre foi, desde os anos 90, até o colapso de 2008.

Qual seja, a reprodução do capital fictício a taxas de retorno as mais elevadas de toda a economia, sem condicionalidades de qualquer natureza.

Exceto o lacre inoxidável da liquidez total, com risco zero.

É nessa espécie de platô marciano, comparado ao relevo habitado pelos que lutam com as incertezas da sobrevivência e da produção, que vive uma plutocracia rentista que acha normal pagar , como lembra o insuspeito jornal Valor, R$ 115 reais por um prato de comida.

Ou R$ 15 por um prosaico quindim, nos restaurantes dos Jardins, em São Paulo.

Os comedores de quindim de ouro dispunham, no final do ano passado, de nada menos que R$ 527 bilhões sob os cuidados de ‘private bankings’. Gerencias especiais, ligadas ou não aos bancos, que cuidam da gestão de grandes fortunas, pessoais ou familiares.

O saldo é oficial, divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O número é reiterado pelo mencionado jornal Valor.

Convém situa-lo no mundo das grandezas.

O valor é maior do que todo o investimento previsto pela Petrobrás em seu plano quadrienal para triplicar a produção do pré-sal até 2017 e atingir um milhão de barris/dia.

Esse é o tamanho do canhão dirigido contra uma política econômica tratada, em tom derrisório, como ‘desenvolvimentista’.

E essa é apenas a parte declarada do paiol que alimenta manchetes alarmistas e teclados prestativos.

O saldo submerso abriga-se em sigilos abissais.

Mas há gente que cavouca inconveniências em todos os lugares, mesmo os mais blindados.

A Tax Justice Network (‘rede de justiça fiscal’) é uma organização britânica especializadas nesse tipo de garimpo.

Seu relatório de 2012 estima que, entre 1970 e 2010, os endinheirados brasileiros acumularam depósitos da ordem de US$ 520 bilhões em contas mantidas em paraísos fiscais.

O valor, equivalente a R$ 1 trilhão de reais, garante à turma verde-amarela o 4º lugar no ranking dos maiores clientes dos ‘offshores’ do planeta. Chineses, russos e sul-coreanos lideram a fila.

É um desempenho robusto.

O PIB do país em 2012 foi da ordem de US$ 2,5 tri. A evasão flagrada pela Tax Justuce equivaleria assim a 1/5 de toda a riqueza anual acrescida à vida da sociedade.

Juro alto, liquidez imediata e risco zero são imiscíveis com o investimento pesado em infraestrutura e expansão industrial que o governo busca induzir.

Nos últimos três anos – reconheça-se, incentivado pela valorização do câmbio que descartou o investimento industrial, abalroado ainda pelo juro alto – a indução se deu no sentido oposto.

De 2009 ao final de 2012, o volume de recursos direcionado aos private bankings cresceu mais de 80% .

Saltou de R$ 291 bi para os mencionados R$ 527 bi, conforme a Anbima.

Nessa trincheira do ganho fácil reina inquietação nesse momento.

O pasto anda baixo. O governo Dilma ceifou o capim rentista trazendo-o à taxa real de juros mais baixa da história recente.

Com o soluço da inflação nos últimos meses, a dinheirama estabulada nesses piquetes de engorda, antes generosos, começa a perder peso em termos reais, descontada a variação dos preços.

Ninguém está sendo empurrado para o matadouro. Ao contrário.

O que o governo Dilma busca é induzir o dinheiro ocioso a galopar dos retiros rentistas para os campos indivisos, onde o aguardam as grandes fronteiras do investimento brasileiro neste início de século 21.

Insuflados por bicos longos e teclados ortodoxos, os rentistas evocam a prerrogativa de continuar comendo seu quindim de ouro, servidos pelo mesmo cardápio suculento. Sem sair do lugar.

Leia, a seguir : Os sócios da Selic

OS SÓCIOS DA SELIC

O mercado financeiro do país é assoalhado por R$ 1,7 trilhão em títulos públicos, que gravitam em torno da taxa básica de juro, a Selic.

Outros R$ 1,4 trilhão estão acantonados num oceano de títulos financeiros privados -CDBs, debentures etc– corrigidos, neste caso, pela taxa praticada nas operações de empréstimos entre os próprios bancos(CDI).

A taxa do CDI sempre foi muito próxima a da Selic.

Mas a farta liquidez disponível hoje no Brasil e no mundo (crédito, investimento público, ingressos de capitais estrangeiros, facilidade de captação no exterior etc) , reduziu a necessidade desse intercâmbio de caixa entre instituições.

Os juros dessas operações, o CDI, tem ficado abaixo da Selic.

Para resumir: a riqueza financeira corrigida por ele está perdendo ou, no máximo, empatando com a inflação.

Foi o que aconteceu no primeiro trimestre deste ano.

Algo muito próximo está perto de acontecer com os detentores de títulos públicos -ainda que neste caso exista um atenuante disseminado, que são as taxas prefixadas. Elas protegem o investidor da dívida pública do encolhimento da Selic.

Grosso modo, porém, as duas massas de riqueza financeira, que somam o equivalente a 75% do PIB brasileiro, tem encontrado dificuldade crescente de se valorizar. Ou, ao menos, manter seu valor real.

Há um universo numericamente expressivo de detentores de dinheiro miúdo nesse aluvião. Mas em termos de densidade financeira, predominam sócios graúdos da Selic.

Bancos e fundos administrados por eles, por exemplo, detém cerca de 55% da dívida pública.

Hoje, o Brasil investe menos de 18% do PIB ao ano na economia real. Precisa elevar isso a, pelo menos, 25% para fechar o buraco da infraestrutura, que não comporta sua nova realidade social.

É em torno dessa travessia de sete pontos que se dá o cabo de guerra entre o rentismo e a luta pelo desenvolvimento.

Parece pouco, mas é ela que pode definir o século 21 brasileiro.

Postado por Saul Leblon às 05:14

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