Não concordo com a opinião do Persio e prefiro a do (ex-guerrilheiro) Ivan Seixas: a ditadura foi alvejada de várias formas. Eu tomei parte em uma delas.

História sem recalque
Ex-guerrilheiro que se tornou psicanalista fala do desamparo da tortura
19 de maio de 2012 | 16h 46
Ivan Marsigliae – O Estado de S. Paulo
Em 1970, aos 25 anos – um “adulto”, segundo diz – Reinaldo Morano Filho largou o quarto ano do curso de medicina na Pinheiros para se lançar em uma aventura tão incerta quanto perigosa. Paulista de Taquaritinga, com emprego no Banco do Brasil, diploma de direito e um Fusca 1967 para desfrutar da juventude sem aperreio, aderiu à Ação Libertadora Nacional (ALN) com a ideia de derrubar a ditadura militar pela força das armas.

Andre Dusek/ AE
A presidente e ex-presa política Dilma Rousseff se emociona na cerimônia de instalação da Comissão
Em pouco tempo seria preso, torturado e testemunharia o assassinato de companheiros. Foram 6 anos e meio nos porões da repressão, dos quais emergiu com sequelas que o tempo não desfaz. As menos dolorosas são as duas hérnias de disco (uma entre as vértebras L4 e L5, outra na região lombar) provocadas pela violência dos golpes. A pior, conta na entrevista a seguir, foi “a vivência do desamparo” da tortura.

Livre, Reinaldo tentou retomar a vida do ponto em que parou. Trocou apenas, e não por acaso, a pediatria pela psiquiatria, da qual derivaria para a formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise. Hoje, mantém um consultório na zona oeste de São Paulo e ensina Freud a alunos da Escola Paulista de Medicina. Na semana em que foi instalada a Comissão da Verdade para apurar crimes cometidos por agentes do Estado entre 1946 e 1988, o analista de 66 anos pôs o País – e a si próprio – no divã.

A Comissão da Verdade é para valer?

Reinaldo Morano Filho – Tenho esperança de que ela vá suscitar debates e estimular revelações. Alguns já começaram a falar, aqui e ali, por conta do clima que se criou. As declarações daquele delegado do Espírito Santo (Cláudio Guerra, que detalhou sua participação na repressão em Memórias de uma Guerra Suja, da Topbooks) podem ser exageradas, mas parte do que ele fala é coerente com o que familiares de desaparecidos e pesquisadores de direitos humanos têm descoberto.

O que resta ainda por saber?

Reinaldo Morano Filho – Eu mesmo tenho coisas que gostaria de tornar públicas. Fala-se pouco dos furtos cometidos por agentes da repressão na época. Obras de arte, objetos pessoais, etc. Eu tinha um fusquinha 1967, adquirido com meu salário de funcionário do Banco do Brasil. Comprei da mãe de um colega do curso de medicina. Quando fui preso, dia 15 de agosto de 1970, o levaram. Anos mais tarde, acho em um arquivo de Campinas uma série de documentos: primeiro, um auto de apreensão do Fusca, datado de 16 de abril de 1971, quase um ano depois. Então, um encaminhamento do juiz auditor alegando que o veículo fora adquirido “com dinheiro da organização terrorista”. Em seguida, o mais fantástico: o carro foi transferido para o delegado Renato D’Andrea, citado em todas as listas de torturadores.

A Comissão recebeu críticas à direita e à esquerda. Para uns ela é revanchista; para outros, uma espécie de rendição, pois não tem dimensão punitiva. Qual sua opinião?

Reinaldo Morano Filho – A busca da justiça não é ressentimento, nem mágoa. Eu não tenho nem uma nem outra. Mas é nossa obrigação honrar a memória dos assassinados e perseguidos. Sobre eventuais punições, vai depender da correlação de forças. Não é assunto encerrado; pelo contrário, está se iniciando.

E a ideia, defendida por membros dos clubes militares, de que ela deveria investigar os ‘dois lados’ – também os crimes cometidos por militantes de esquerda?

Reinaldo Morano Filho – O palco da política é o Congresso, onde os termos da Comissão foram definidos. De que se trata? Do esclarecimento da prática de tortura, assassinato e desaparecimento enquanto política de Estado. Porque ela era institucionalizada, não um “excesso” cometido por poucos agentes.

Os clubes alegam que organizações como a de que o sr. tomou parte queriam implantar uma ditadura de esquerda.
Reinaldo Morano Filho – Não dá para tergiversar sobre a história. Qual foi o grande pecado do presidente João Goulart? Ele estava em vias de estabelecer um regime comunista? As chamadas reformas de base de Jango eram bandeiras de aggiornamento, de atualização democrática da sociedade, que na Europa já estavam resolvidas havia 200 anos. Quem interrompeu o debate democrático foi a ditadura, não as organizações de esquerda que se opuseram a ela depois.

Qual é a sua pior lembrança da tortura?
Reinaldo Morano Filho – A vivência do desamparo. Um desamparo absoluto na hora em que você está pendurado num pau de arara com um bando de animais – que não são animais porque os animais não fazem isso – a sua volta batendo, gritando. Acontece de você precisar usar o banheiro, isso não ser permitido, e você acabar evacuando lá, ouvindo gozação. É uma situação extremamente humilhante.

Já encontrou um torturador pela frente?

Reinaldo Morano Filho – Em março de 1991, numa audiência na Câmara Municipal sobre as ossadas do cemitério de Perus. Fui depor contra Josecyr Cuoco (delegado do Deops paulista em 1970), que tinha participado da minha prisão. Ele foi o primeiro que me agrediu, na chegada, com um soco no nariz. Fazia exatamente 20 anos, eu já tinha feito análise, mas ainda assim a gente tem uma espécie de revival. O sentimento que prevalece é a raiva. Anos depois, vim a saber que Josecyr era sobrinho-neto da minha avó.

O torturador gosta do que faz?
Reinaldo Morano Filho – A (psicanalista e membro da CV) Maria Rita Kehl usou uma expressão para ser referir a isso: gozo, um termo lacaniano. Eu chamo de prazer mesmo. Um prazer sádico, do poderoso que é dono da situação diante de alguém desamparado. Esse sadismo se manifesta às vezes de forma sexualizada. Por isso, a quantidade de estupros e abusos.

De que maneira a psicanálise o ajudou a lidar com a experiência nos porões?
Reinaldo Morano Filho – O registro de um trauma depende da pele psíquica de cada um, do quanto aquela agressão fere a pele psíquica do indivíduo. Após a tortura, o clima de terror permanece. E você compartilha de uma angústia coletiva a cada vez que um preso é levado para a sala de torturas ou para uma “diligência” onde, sabe-se, será assassinado. Freud tem uma passagem sobre o desamparo em que o localiza no nascimento do ser humano. O bebê humano, diferentemente do de outras espécies, é indefeso. Deixado à própria sorte, não consegue nem se virar, morre. Isso cria um registro na mente infantil, que gera o medo do desamparo. A experiência da tortura só faz exacerbar essa marca.

Que marca a tortura lhe deixou?
Reinaldo Morano Filho – Mesmo com todos os anos de análise que fiz, hoje me vejo como alguém que tem um colorido… meio depressivo. Nada que me atrapalhe a vida, talvez até ajude em minha profissão. Mas fica uma espécie de nuvem, que eu não tinha antes.

Que efeito tem para o sr. a volta desse tema ao debate público nacional?
Reinaldo Morano Filho – Quando outras narrativas começam a surgir, há um certo alívio. No sentido de que não somos mais os únicos a falar. Isso aconteceu mesmo, não éramos malucos.

Em um artigo na revista Piauí o ex-guerrilheiro, economista e um dos pais do Plano Real, Persio Arida, reavaliou seu passado na luta armada e concluiu que ela contribuiu apenas ‘por vias tortas’ para o retorno da democracia. O sr. concorda?

Reinaldo Morano Filho – Eu me lembro quando o grupo do Persio chegou ao DOI-Codi. A Beth Mendes (então militante política, depois eleita deputada federal pelo PT em 1983) foi presa com eles. A chegada do grupo causou certo rebuliço, porque eram todos muito jovens, estudantes secundaristas. Eu já tinha 25 anos, era um adulto, advogado formado. Considero minha adesão à luta diferente da do Persio. Eu tinha participado de toda aquela esperança pré-golpe. Não aderi à luta armada porque um dia de manhã acordei e falei “gosto de dar tiros, vamos ver onde posso saciar essa compulsão”. Fiz por falta de opção, por não poder participar da vida política. Não concordo com a opinião do Persio e prefiro a do (ex-guerrilheiro) Ivan Seixas: a ditadura foi alvejada de várias formas. Eu tomei parte em uma delas.

Falando mais como psicanalista que como alguém que participou dos acontecimentos, o sr. acha que ‘recalcar’ essa parte da história tem consequências no País hoje?

Reinaldo Morano Filho – A situação vigente, de tortura como método de investigação nas delegacias de qualquer biboca do País, tem a ver com essa história de violência. Que é anterior até à ditadura, vem da escravidão e da permanência de uma cultura da impunidade. “Bate, tortura, que não dá em nada.” O momento que estamos vivendo é a chance de uma outra fala: “Quer fazer, faça. Mas você corre o risco de ser denunciado. E, quem sabe, num País mais maduro, apenado.” O desrecalque é também uma redenção. Trata-se de uma necessidade, uma obrigação e uma contribuição que a gente tem que fazer para o Brasil.

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