Verônica Serra Você não conhece, mas a filha do ministro pode ser a mulher mais importante da Internet brasileira Por Ivan Martins

ISTO É DINHEIRO

Nº EDIÇÃO: 136 | PERFIL | 05.ABR.00 – 10:00 | Atualizado em 13.12 – 11:23

Quantas mulheres importantes existem na Internet brasileira? Se você está com dificuldade em lembrar de um nome, anote este: Verônica Serra. Ela tem 30 anos e diz que já ganhou na rede mais dinheiro do que sonhava ganhar a vida inteira. Ativa e bem relacionada, a moça pilota do Itaim, como sócia, o escritório latino-americano da International Real Returns (IRR), uma empresa de administração de ativos com US$ 600 milhões de capital europeu. Nos últimos 13 meses, essa advogada com MBA em Harvard ajudou a criar 12 empresas de Internet (oito delas fora do Brasil) e montou uma teia de relações que a coloca no centro do nascente setor de capital de risco brasileiro. No seu currículo estão sites conhecidos como Zoyd, Decidir e Superbid. “Ela é uma das pessoas mais argutas que eu conheço”, opina o empresário Marcos de Moraes, sócio fundador do portal ZipNet, que andou discutindo negócios com a jovem capitalista. “Seu trabalho se destaca do resto do mercado pela qualidade dos projetos.” Ah, sim: Verônica é a filha mais velha do ministro José Serra, da Saúde, mas acredita que isso não tem importância no seu ramo de negócios. “Quem está na Internet não tem nada a ver com a área dele”, afirma. “Por ter feito o que fiz, tão cedo, as pessoas percebem que não há relação de favorecimento.”
Simpatia como arma. Ninguém deve imaginar Verônica parecida com o pai sisudo. Ela fala pelos cotovelos, sorri muito, usa a simpatia como arma. Nem é menina rica matando o tempo enquanto alguém toca o negócio. Dá expedientes de 11 horas, viaja até três vezes por mês ao exterior e despacha e-mails às três da madrugada. Nos finais de semana, para desgosto do marido, carrega o lap-top para casa. “Não acho que meu ritmo seja normal, mas eu adoro o que faço”, explica-se, sorrindo. Enquanto Serra é identificado com a Velha Economia, industrialista e keynesiana, sua filha é a cara da Nova Economia – financeira, digital, americanizada. O vocabulário e as referências de Verônica são Wall Street puro, ou puro Vale do Silício. Não há na conversa nenhum resquício da garota que foi diretora do Centro Acadêmico XI de Agosto, na Faculdade de Direito da USP, e puxou passeatas contra Fernando Collor. Ela lembra, irritada, que seu grupo no CA foi acusado de ser parte do PSDB e receber apoio financeiro da Fiesp. “Esse tipo de mentira me deixa tão indignada que eu prefiro não tomar parte da política”, diz ela. O pai político, por sua vez, também costumava ser cético em relação à Internet. Com o tempo, tranqüilizado pelo sucesso da filha, passou a se interessar e simpatizar. Agora, o ministro até manda recortes de jornais sobre o assunto. “Ele só acha que eu trabalho muito”, diz Verônica. Por conta do exílio do pai, ela nasceu no Chile e mudou-se aos quatros anos para os Estados Unidos. Chegou ao Brasil aos nove anos, em 1978. O lado bom dessa infância itinerante é que Verônica fala inglês e espanhol fluentemente.
O pulo do gato da sua carreira de capitalista de risco foi Harvard, para onde Verônica mudou-se em 1995 com uma bolsa de estudos. Lá, conseguiu o primeiro trabalho com fundos de investimentos, em uma companhia de administração de recursos chamada Leucadia. Seu desempenho ali levou-a à IRR. Mas os dois anos em Harvard serviram, sobretudo, para que montasse uma rede de relações pessoais que são a chave do seu trabalho, aquilo que os americanos chamam de networking. Mesmo os concorrentes que não gostam do seus estilo – arrogante, dizem — admitem que a moça tem excelentes contatos. Foi um amigo de curso que a colocou em contato, por exemplo, com os jovens argentinos que fundaram o site de finanças Patagon. Quando eles quiseram entrar no Brasil, em janeiro de 99, Verônica ajudou a contratar um CEO, arranjou parceiros estratégicos e deu conselhos gerais para o implante do negócio. Foi paga com ações da companhia. No início de março, quando o banco Santander comprou 75% da Patagon por US$ 550 milhões, as ações de Verônica já valiam 100 vezes mais. E ela não vendeu. Em julho próximo, quando a empresa entrar na Bolsa americana, o valor dos papéis poderá dar outro salto – ou não, porque há no ar um certo cansaço em relação aos papéis Internet. “Vamos ver. Talvez eu tenha tomado a decisão errada”, diz ela.

Quatro projetos. Além de torná-la pessoalmente rica, o negócio da Patagon abriu para Verônica as portas para outros projetos latino-americanos. Hoje, ela tem no currículo quatro empresas na Argentina, duas no Chile e três nos Estados Unidos, lançadas por empresários latinos. Ela entra com assessoria, participação de 5% a 20% do negócio e, algumas vezes, atração de outros investidores. Os planos desses empreendedores chegam a ela, entre outras vias, pelo Círculo Pinguim – uma rede informal montada em torno dos fundadores da Patagon e seus amigos. A maioria deles, como Verônica, tem passagens nas universidades americanas. Isso é 100% networking, e funciona. “Na Internet, quem está fazendo sucesso se conhece”, diz ela. Trata-se, agora, de fazer-se conhecida também entre os brasileiros que ainda não fazem sucesso na rede, mas têm bons projetos de negócios. E a concorrência está dura. Pela primeira no Brasil, há mais dinheiro na praça do que boas idéias. E há uma moça obstinada correndo atrás delas.

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